segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CRÍTICA: ‘Fina estampa’ e as mulheres que apanham nas novelas

Em “Fina estampa”, Dira Paes é Celeste, dona de casa dedicada à filha funkeira que apanha do marido, Baltazar (Alexandre Nero). Apesar de ser tratada por ele como um pedaço de lixo, ela é muito apaixonada. Na história de Aguinaldo Silva, na cama com a mulher, o motorista se transforma no mais afetuoso dos homens. É esse, portanto, o motivo de tanta submissão.
Na primeira pesquisa que a TV Globo fez sobre a novela, há duas semanas, Baltazar foi apontado como um dos personagens masculinos preferidos das donas de casa entrevistadas. Supresa? Não. Dira Paes tem uma ficha corrida de bons trabalhos na televisão e no cinema, é uma ótima atriz. Mas esta sua personagem é candidata à mais chata das 21h nos últimos tempos.
Até agora, Celeste nunca foi vista em cenas de sofrimento verdadeiro que facilmente ajudariam a promover empatia com o público. Parece infantilizada, falando até com voz de criança, como se seu drama fosse bobo. Talvez por isso, o público se sinta liberado para se ligar a Baltazar, mesmo sendo ele um personagem negativo, o inverso de Celeste.
Violência doméstica não é novidade na teledramaturgia. Pelo menos duas novelas mais ou menos recentes mobilizaram o Brasil com esse tema. “Mulheres apaixonadas”, de Manoel Carlos (de 2003), lançou Dan Stulbach na TV como Marcos, o descompensado marido ciumento que usou uma raquete de tênis para aplicar uma surra na mulher, a professora interpretada por Helena Ranaldi. Ninguém nunca viu um espancamento explícito, nem precisava: o sofrimento pesava em todas as aparições da personagem.
Outra excelente abordagem do tema foi a de João Emanuel Carneiro em “A favorita” (em 2008). Lilia Cabral era Catarina, a esposa humilhada de Leonardo (Jackson Antunes). João foi aumentando a voltagem das afrontas que o malvado fazia. Elas eram diretamente proporcionais ao acuamento de Catarina. Ele avançava, ela recuava, o público vibrava e torcia.
Em “Fina estampa”, o sofrimento de Celeste precisa ganhar corpo urgentemente. Só assim a discussão, que é de gente grande, tem tudo para crescer.

Escrito por Patrícia Kogut, do Jornal O Globo.

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